A Extinção Permiana causada pelo impacto de um grande asteroide no ponto antipodal ao derrame de lava na Sibéria, a resultante cratera complexa com dois anéis secundários, e as origens e consequentes flora e fauna nativas exclusivas da Nova Zelândia
Jefferson W. Dessordi
2020
Revisão 6: 15/05/2020
Atualização sobre cratera Tarim: 13/02/2021
Agradeço a meu pai, minha mãe e minha avó, que se sacrificaram para que eu pudesse ter acesso aos livros de História Natural que mudaram minha vida para sempre.
O conhecimento que recebi quando criança me permitiu a curiosidade, a motivação e a persistência para buscar as respostas aos grandes enigmas da natureza.
Sumário
“Afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias.”
Carl Sagan
Este estudo apresenta evidências claras de que a Extinção Permiana ocorrida há 252 milhões de anos foi causada pelo impacto de um grande asteroide no ponto antipodal ao derrame de lava na Sibéria o qual, até agora, era considerado como sua única causa.
É importante observar que os próprios impactos causam destruição e um grande número de vítimas instantaneamente, muito antes dos fatores climáticos frequentemente associados aos eventos de impacto.
No caso de Chicxulub, no final do Cretáceo, a cratera resultante localizada no litoral do México possui um diâmetro de apenas 180 quilômetros...
Então os cientistas discutem o inverno vulcânico e o aquecimento global após o evento para tentar entender a mortalidade alcançada, mas raramente discutem os fenômenos imediatos durante o impacto.
No caso da extinção do final do Permiano, estamos falando de uma cratera com diâmetro de 4.600 km... há uma desproporção evidente que será analisada ao final desta apresentação.
No caso da extinção do final do Permiano, estamos falando de uma cratera com diâmetro de 4.600 km... há uma desproporção evidente que será analisada ao final desta apresentação.
Nas horas após o impacto, a maior parte da vida por milhares de quilômetros ao redor da cratera já havia desaparecido — os níveis de CO2, o inverno vulcânico e o aquecimento global foram menos significativos para a extinção do que os fatores associados imediatamente a eventos de impacto.
Esses fatores precisam ser levados em consideração para entender a verdadeira magnitude desse tipo de evento, ainda mais para a extinção do Permiano:
A energia térmica liberada pelo impacto varreu o hemisfério, uma onda de choque centenas de vezes mais intensa que a pressão atmosférica percorreu momentaneamente o planeta, os oceanos foram superaquecidos e acidificados, e megatsunamis circularam o globo várias vezes.
Um terremoto de magnitude superior a 13,6 percorreu o globo, e as ondas sísmicas se concentraram no ponto oposto do planeta, causando a ruptura da crosta terrestre e extravasando o magma subterrâneo sobre a Sibéria.
Essa efusão de magma permaneceu ativa por vários milhões de anos, e seu único efeito foi dificultar a recuperação da vida após o cataclismo.
Poucos sobreviventes enfrentaram o clima severo após o pior já ter ocorrido.
A cratera complexa resultante mostra um diâmetro de aproximadamente 1.500 quilômetros e anel secundário de 4.600 quilômetros, e se fragmentou em quatro partes principais ao longo de 3 etapas:
Imagem: Google Earth e Antártida sem gelo, Placa de Nazca (em Wikipedia)
Todas as imagens com círculos idênticos de 4.600 km sobrepostos.
A pequena diferença de tamanho se deve ao recorte da imagem.
Todas as imagens com círculos idênticos de 4.600 km sobrepostos.
A pequena diferença de tamanho se deve ao recorte da imagem.
· A fração da Antártida Ocidental, local do impacto, com sua gigantesca província vulcânica descoberta recentemente — hotspot geológico remanescente do impacto — e o anel secundário externo oriental da cratera que constitui a cordilheira em arco dos Montes Transantárticos com diâmetro de 4.600 quilômetros;
· A fração da Placa de Nazca, a primeira a se mover em relação à Antártida Ocidental, carregando com ela a fração da Placa das Filipinas/Placa das Marianas que mais tarde acabaria derivando rumo a sua posição atual na costa da Ásia;
· A fração da Placa das Filipinas/Placa das Marianas, que mostra metade da cratera central e seu anel secundário externo constituído pelo menos por parte do Arquipélago do Japão, Ilha de Taiwan e Arquipélago das Filipinas, dispostos em um arco com diâmetro de 4.600 km centralizado na Placa das Marianas;
· A fração da Zelândia com seu anel secundário externo em formato em S causado pela deformação da parte norte ao colidir com a Placa Australiana derivando para leste. Na região central, o anel se apresenta com o diâmetro aproximado de 4.600 quilômetros a partir do arco vulcânico de Vanuatu (Placa Tectônica das Novas Hébridas), e sua parte sul foi deformada pela pressão da Placa do Pacífico derivando em direção ao noroeste.
· A fração da Placa de Nazca, a primeira a se mover em relação à Antártida Ocidental, carregando com ela a fração da Placa das Filipinas/Placa das Marianas que mais tarde acabaria derivando rumo a sua posição atual na costa da Ásia;
· A fração da Placa das Filipinas/Placa das Marianas, que mostra metade da cratera central e seu anel secundário externo constituído pelo menos por parte do Arquipélago do Japão, Ilha de Taiwan e Arquipélago das Filipinas, dispostos em um arco com diâmetro de 4.600 km centralizado na Placa das Marianas;
· A fração da Zelândia com seu anel secundário externo em formato em S causado pela deformação da parte norte ao colidir com a Placa Australiana derivando para leste. Na região central, o anel se apresenta com o diâmetro aproximado de 4.600 quilômetros a partir do arco vulcânico de Vanuatu (Placa Tectônica das Novas Hébridas), e sua parte sul foi deformada pela pressão da Placa do Pacífico derivando em direção ao noroeste.
As ilhas da Nova Zelândia se originaram no anel secundário externo dessa fração e foram a última região a se destacar da Antártica Ocidental.
Apenas a Ilha Norte ainda se encontra localizada nesse diâmetro por conta da deformação imposta pela deriva da Placa do Pacífico — ou o conjunto de ilhas girou sobre seu eixo comum, ou a Ilha Sul foi deslocada de sua posição original.
Apenas a Ilha Norte ainda se encontra localizada nesse diâmetro por conta da deformação imposta pela deriva da Placa do Pacífico — ou o conjunto de ilhas girou sobre seu eixo comum, ou a Ilha Sul foi deslocada de sua posição original.
Essa origem para as ilhas da Nova Zelândia permite explicar o enigma de sua fauna não compartilhar répteis, anfíbios e mamíferos originários do continente australiano, a partir do qual elas supostamente teriam se separado em tempos relativamente recentes de acordo com a teoria aceita até agora.
Confira no Google Earth:


O caminho percorrido pelas metades da cratera que causou a extinção do final do Permiano é evidenciado pelas cordilheiras vulcânicas submarinas que atravessam todo o oceano Pacífico, de maneira similar ao caminho percorrido pela proposta cratera Rohe que deu início à extinção do final do Cretáceo (impacto anterior ao de Chicxulub, explicado em outro estudo).
1.
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Introdução
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1.1
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Efeitos geológicos antipodais de grandes crateras na Lua e Mercúrio
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1.1.1
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Cratera Mare Orientale e Mare Marginis na Lua
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1.1.2
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Bacia Caloris e terreno caótico em Mercúrio
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1.1.3
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Cratera Wegener e Traps Siberianos na Terra
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1.2
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Impactadores capazes de originar uma cratera como a estudada
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1.2.1
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Impactadores originários de nosso sistema solar
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1.2.2
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Hipótese de impactador interestelar
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1.3
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Fenômenos geológicos associados a eventos de impacto
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1.3.1
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Fenômenos causados diretamente pelo impacto
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1) Hotspots
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2) Crateras, bordas de crateras e arcos vulcânicos
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3) Derrames de lava
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4) Cadeias vulcânicas
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5) Cenotes e lagos cársticos
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6) Microplacas tectônicas subterrâneas
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1.3.2
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Deformação de arcos vulcânicos
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1.3.2
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Reativação de arcos vulcânicos
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2.
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Cratera Wegener: Causa primária da Extinção Permiana
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• Cratera complexa com múltiplos anéis
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• Exemplo da cratera Mare Orientale
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2.1
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A estranha configuração da Cratera Wegener
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2.1.1
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A fração da Placa das Filipinas/Placa das Marianas
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1) Lado oriental da fração da Placa das Filipinas/Placa das Marianas
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• Cratera central
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• Anel secundário interno
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2) Lado ocidental da fração da Placa das Filipinas/Placa das Marianas
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• Cratera central
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• Anel secundário externo
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• Derrames de lava internos da Cratera Wegener
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• Cratera Wegener B
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2.1.2
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Fração da Antártida Ocidental
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1) Hotspot da Cratera Wegener
• Geleira do Juízo Final | ||||||||||
2) Coincidência entre o hotspot e a cratera central
3) Degelo devido à colisão entre as metades oriental e ocidental da Antártida | ||||||||||
2.1.3
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Fração da Zelândia
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1) Processo de desintegração da Cratera Wegener
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• O que aconteceu com a metade sul da Cratera Wegener?
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• O misterioso desaparecimento do anel secundário externo oriental
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2.2
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O que aconteceu com o anel secundário externo da Cratera Wegener?
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2.2.1
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Japão, Taiwan, Filipinas e Nova Zelândia:
Formados na segunda maior cratera de impacto do Sistema Solar
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• O caso do Japão
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• O caso de Taiwan
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• O caso das Filipinas
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• O caso da Papua Nova Guiné
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• O caso da Nova Zelândia
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2.2.2
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Evidências de colisão da Cratera Wegener com a Placa Australiana
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1) Coincidência de arcos vulcânicos
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2) Coincidências e excepcionalidades geológicas no anel secundário externo
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3) Não conformidade dos perfis costeiros
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2.3
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Evidências da Nova Zelândia para a Cratera Wegener
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1) A flora e fauna exóticas da Nova Zelândia
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• Moas (Dinornis spp., Emeus crassus, Anomalopteryx didiformis)
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2) Resposta ao enigma da fauna e flora exóticos da Nova Zelândia
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• Tetrápodes nativos excepcionais da Nova Zelândia
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- Tuatara (Sphenodon spp.)
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- Morcegos frutívoros
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- Leões-marinhos
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- Fóssil de mamífero de Saint Bathans
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• Desenvolvimento de terrenos férteis por intemperismo
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• Primeiros líquenes, pteridófitas e gimnospermas
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• Colonização por insetos da Antártida
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- Formigas
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- Baratas (Celatoblatta, Maoriblatta, Parellipsidion)
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- Wētās (Deinacrida spp.)
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3) Samambaias e tuataras da Nova Zelândia
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• Samambaias de clima temperado da Antártida
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• Colonização por tuataras da Antártida (Sphenodon spp.)
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• Parasita das tuataras da Antártida (Amblyomma sphenodonti)
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4) Teoria atual da separação da Nova Zelândia da Austrália
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2.4
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Cadeias vulcânicas submarinas associadas à Cratera Wegener
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1) As caóticas cadeias vulcânicas submarinas
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2.5
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A relação entre a Placa de Nazca e a Cratera Wegener
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1) A zona geológica anômala na costa do Chile
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2) Interpretação do enigma da Placa de Nazca
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3.
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Outras crateras da Extinção Permiana
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3.1
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Austrália
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3.1.1
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Cratera Bedout
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3.2
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Ásia
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3.2.1
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Crateras Arghanaty A e B
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3.2.2
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A grande Cratera Tarim escondida à plena vista no Planalto Tibetano
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1) Por que os geólogos não reconhecem a Bacia Tarim como uma cratera de impacto?
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2) Microplaca tectônica subterrânea de Tarim
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3.3
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América do Sul
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3.3.1
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Cratera Araguainha
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3.4
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África
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3.4.1
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Cratera Luizi?
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3.5
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Hipótese de uma rajada dupla de asteroides
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4.
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Eventos e consequências dos impactos do Permiano
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4.1
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Efeitos geológicos, meteorológicos e paleontológicos dos impactos do Permiano
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a) Irradiação térmica
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b) Airblast
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c) Derrame de lava interno da cratera
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d) Terremoto global
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e) Ejecta
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f) Incêndios florestais
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g) Megatsunamis
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h) Poeira e cinzas
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i) Inverno vulcânico
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j) Aquecimento e anóxia dos oceanos — Porcentagem da vida marinha extinta
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k) Megatempestades
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l) Derrame de lava antipodal na Sibéria
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m) Atividade vulcânica global
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n) Fraturas continentais concêntricas centradas na Cratera Wegener
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o) Porcentagem da vida continental extinta
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p) Perturbação do manto da Terra
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q) Arranjo concêntrico da Megaformação Varsicana
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r) Deriva da Placa Indiana
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s) Anomalia Magnética do Atlântico Sul
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t) Distribuição de minérios metálicos
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u) Atividade sísmica em países do anel secundário externo
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v) Formação de carvão permiano no Brasil
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w) Distribuição de terras raras na Ásia atribuída ao impacto de Tarim
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x) Anomalias geológicas concêntricas centradas na cratera de Tarim
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y) Contribuição para a origem dos dinossauros
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z) Desertos de sal sul-americanos originados por megatsunamis
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α) Níveis elevados de salinidade dos solos da Patagônia
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β) Áreas inférteis do sul da África, Austrália, Índia e América do Norte
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γ) Teor de lítio no Salar de Uyuni
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δ) Platina, irídio e ródio em líquenes da Terra do Fogo
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ε) Distribuição de minério de cobre ao redor do local do impacto
φ Deriva da Nova Zelândia e consequente congelamento da Antártida
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5.
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Uma questão em aberto: Proporcionalidade e causa real das grandes extinções
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6.
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Conclusão
Apêndice
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Prefácio
A Extinção Permiana ocorrida há cerca de 252 milhões de anos foi um evento de proporções extraordinárias:
96% da vida nos oceanos e 70% da vida nos continentes simplesmente desapareceram, alterando radicalmente os rumos da evolução da vida no planeta.
Imagens: Eartharquives.org
Até mesmo os trilobitas, sobreviventes de diversas extinções anteriores, foram varridos dos oceanos.
Nada similar à extinção permiana ocorreu antes ou depois na história geológica; o único evento comparável foi a extinção cretácea que eliminou 75% da vida marinha e boa parte da vida terrrestre, incluindo os icônicos arcossauros voadores e os dinossauros não avianos.
A crise do Permiano foi muito pior que todas as outras extinções; até então, parentes de nossos antepassados dominavam a Terra com a mesma desenvoltura que seus sucessores desaparecidos no Cretáceo.
Imagem: Detalhe da arte de Mauricio Anton, animais permianos, mostrando escutossauro e inostrancevia. Imagem completa à venda em fineartamerica.com
A partir de então, nossos poucos antepassados que sobreviveram passaram os 186 milhões de anos seguintes se escondendo das gigantescas e eficientes feras emplumadas (ou não?) que até hoje nos assombram e encantam em livros e franquias de filmes, até que o impacto de Chicxulub mudasse novamente o cenário.
Imagem: Detalhe da arte de Mauricio Anton, animais permianos, mostrando escutossauro e inostrancevia. Imagem completa à venda em fineartamerica.com
A partir de então, nossos poucos antepassados que sobreviveram passaram os 186 milhões de anos seguintes se escondendo das gigantescas e eficientes feras emplumadas (ou não?) que até hoje nos assombram e encantam em livros e franquias de filmes, até que o impacto de Chicxulub mudasse novamente o cenário.
Qual a causa da extinção permiana?
Um evento preliminar, o derrame de lava de Emeishan ocorrido há 265 milhões de anos, piorou muito as condições de vida no planeta e chegou a causar um nível baixo de extinções.
Mas após 13 milhões de anos, ocorreu um derrame de lava excepcionalmente intenso na Sibéria — em comparação, ele foi capaz de romper a crosta terrestre e extravasar o magma das profundezas por uma extensão equivalente a todo o continente da Austrália.
Esse derrame de lava é apontado como a causa única e definitiva da extinção permiana, e não há dúvida quanto à sua ocorrência — o enorme fluxo de lava negra pode ser visto do espaço:
Imagem: Google Earth
Tal extravasamento teria sido causado por um “pulso de magma”, uma pluma gigantesca de magma excepcionalmente quente elevada repentinamente das entranhas do manto terrestre.
Entretanto, faltava uma explicação convincente para a causa desse pulso.
Não é possível aceitar que uma pluma do manto descomunal tenha surgido repentinamente por um mero evento de convecção — convecção é um processo extremamente lento até mesmo em fluidos pouco viscosos.
Se houvesse tamanha concentração de calor naquele ponto específico da crosta terrestre, seu efeito continuaria até os dias de hoje, não teria se dissipado somente com a erupção dos planaltos siberianos.
Atividades vulcânicas surgidas por convecção são processos sutis e prolongados aos quais a vida consegue se adaptar, vide os processos da formação da Dorsal Mesoatlântica e da ruptura da Placa Tectônica da África, e mesmo a grande província ígnea de Paraná-Etendeka aqui no Brasil — convivemos com estes eventos há centenas de milhões de anos e a vida segue muito bem, obrigado.
Atividades vulcânicas surgidas por convecção são processos sutis e prolongados aos quais a vida consegue se adaptar, vide os processos da formação da Dorsal Mesoatlântica e da ruptura da Placa Tectônica da África, e mesmo a grande província ígnea de Paraná-Etendeka aqui no Brasil — convivemos com estes eventos há centenas de milhões de anos e a vida segue muito bem, obrigado.
Um pulso de magma como aquele ocorrido ao final do Permiano está em um nível energético extraordinário — para entendê-lo, é necessário admitir que existiu um evento desencadeador do processo.
Fazendo uma analogia crua, uma bomba precisa de uma espoleta para explodir — um sistema estável não muda sua condição sem a atuação de um fator externo; processos que se estendem por milhões de anos não se tornam explosivos sem uma causa.
Mas há uma causa plausível capaz de gerar um evento de tamanha magnitude, e as evidências estão plenamente visíveis e comprováveis em nosso planeta... Simplesmente, ninguém as havia interpretado até o momento.
Esses indícios permitem deduzir e comprovar que a extinção permiana foi causada inicialmente pelo impacto um enorme asteroide.
O grande impacto ocorreu em um ponto do Proto-oceano Pacífico localizado na região polar sul que hoje é ocupada pela porção ocidental do continente da Antártida — um ponto exatamente antipodal em relação aos derrames de lava siberianos.
E a cratera que se formou se fragmentou em três porções que acompanharam a deriva das Placas de Nazca e do Pacífico, e hoje essas frações correspondem basicamente à Antártida Ocidental, Placa das Filipinas/Placa das Marianas e Placa da Zelândia.
Como consequência, várias ilhas e arquipélagos se formaram no anel secundário externo desta complexa cratera.
E as melhores evidências são encontradas na Nova Zelândia:
A origem antártica triássica proposta para sua flora e fauna pode explicar as razões de sua singularidade e adaptações evolutivas peculiares.
A comprovação destas afirmações segue apresentada abaixo.
1. Introdução
1.1 Efeitos geológicos antipodais associados a grandes crateras na Lua e em Mercúrio
Um impacto resultando em um grande derrame de lava devido ao encontro das ondas sísmicas no ponto oposto de um corpo celeste tem precedentes, e o melhor dos exemplos está na Lua:
1.1.1 A Cratera Mare Orientale, diâmetro de 930 km, se opõe ao Mare Marginis, um derrame de lava no ponto antipodal com extensão de 358 km.
Imagens: Cratera MARE ORIENTALE, 1967 Lunar Orbiter 4, e derrame de lava MARE MARGINIS, em Wikipedia
Esse impacto ocorreu quando a Lua ainda dispunha de um manto semifluido sob a crosta, portanto as condições e a mecânica do impacto foram mais próximas à de nosso planeta. A proporção entre os diâmetros da Cratera Mare Orientale e da Lua é de 26%.
1.1.2 No planeta Mercúrio, a Bacia Caloris, diâmetro de 1.550 km e atribuída a um asteroide com 100 km, está diametralmente oposta a um terreno caótico atribuído ao encontro antipodal das ondas sísmicas.
Também há evidências da ocorrência de vulcanismo em escala planetária associado ao impacto. A proporção entre os diâmetros da Bacia Caloris e de Mercúrio é de 32%.
1.1.3 Na Terra, o local do impacto da cratera estudada se localiza no ponto antipodal ao derrame de lava da Sibéria, cocausador da extinção permiana. A proporção entre os diâmetros desta cratera e do planeta Terra é de 39%.
Cálculos sobre o tamanho mínimo para um evento de impacto necessário para causar o reencontro das ondas sísmicas do outro lado de nosso planeta apontam para crateras com diâmetro mínimo de 1.000 km.[1]
Com uma cratera de quase 5 vezes esse diâmetro, não há dúvida de que nosso impactador seria capaz de causar um derrame de lava antipodal da magnitude do evento permiano.
1.2. Impactadores capazes de originar a cratera Wegener
1.2.1 Impactadores originários de nosso sistema solar
A Cratera Wegener seria a maior já encontrada em nosso sistema solar[2].
É o único evento de impacto de tamanha magnitude a ocorrer em tempos recentes, muito depois do período do Intenso Bombardeio Tardio[3].
De acordo com a ferramenta Earth Impact Effects Program de Robert Marcus, H. Jay Melosh, e Gareth Collins, London College e Purdue University, há algumas possibilidades para o impactador.
Ele poderia ser:
A) Um cometa com densidade[4] de 1.000 kg/m3, velocidade orbital de 51 km/s e diâmetro aproximado de 640 km — esse tamanho é 6,4 vezes superior ao maior cometa registrado.
B) Um cometa com densidade de 1.000 kg/m3, velocidade orbital máxima de 72 km/s e diâmetro aproximado de 540 km— esse tamanho é 5,4 vezes superior ao maior cometa registrado.
C) Um asteroide metálico com densidade de 8.000 kg/m3, velocidade orbital[5] de 24 km/s e diâmetro aproximado de 380 km — esse tamanho é 3,4 vezes superior ao maior asteroide metálico observado, 16 Psyche.
A alternativa C é a mais plausível: o impactador poderia se tratar de um resquício do núcleo de um planeta desintegrado ou um planetesimal, eventualmente formado juntamente com 16 Psyche.
Para efeito de escala, o tamanho do impactador seria 25% maior que o estado de Santa Catarina, 25% maior que Portugal, ou igual ao estado norte-americano da Pensilvânia.
Atualmente há dezenas de asteroides conhecidos com diâmetro próximo a 400 km, alguns sendo luas como Mimas, Nereida e Proteus, mas nenhum destes é totalmente metálico.
Como ainda há muitos corpos celestes ainda por identificar, a possibilidade da existência de grandes asteroides metálicos não pode ser descartada.
1.2.2 Hipótese de impactador interestelar
A ocorrência do impacto aproximadamente no polo sul terrestre indica uma trajetória praticamente perpendicular ao plano da eclíptica e, portanto, perpendicular ao plano preferencial das órbitas dos corpos gravitando em nosso sistema solar.
Cometas podem se originar em regiões fora do plano da eclíptica, mas sua baixa densidade exigiria um objeto de dimensões nunca vistas para causar o impacto da magnitude daquele da Extinção Permiana.
Cometas podem se originar em regiões fora do plano da eclíptica, mas sua baixa densidade exigiria um objeto de dimensões nunca vistas para causar o impacto da magnitude daquele da Extinção Permiana.
Alguns fatores chamam a atenção para uma possível origem interestelar desse impactador:
· Cometas interestelares apresentam velocidades maiores que as observadas para cometas de origem local — portanto objetos menores, dentro das dimensões esperadas para cometas, teriam energia cinética suficiente para causar impactos de maior magnitude;
· As trajetórias dos dois únicos objetos interestelares observados até o momento não coincidem com o plano da eclíptica;
· Há uma distribuição anormal de impactos nas regiões dos polos da Lua — seus polos Norte e Sul mostram uma quantidade muito superior à média de impactos das faces visível e oculta de nosso satélite;
· Há duas grandes crateras no continente antártico: a estudada neste trabalho e a Cratera de Wilkes Land, com possibilidade de outras ainda a serem descobertas debaixo da camada de gelo;
· Há várias crateras de impacto no hemisfério Norte terrestre, inclusive no fundo marinho da região ártica, e duas crateras descobertas recentemente na Groenlândia, além de diversas evidências de impacto no continente norte-americano, particularmente no Canadá, abordadas em outros estudos do autor.
O crateramento dos polos lunares é surpreendente:
Imagens: Google Earth/Lua - Polo Norte e Polo Sul de nossa Lua
Tal distribuição é forte evidência de um bombardeio periódico com relativa frequência.
Uma hipótese que explicaria essas ocorrências seria um enxame de asteroides que intercepta a órbita de nosso sistema solar a cada ano galáctico — da mesma maneira que a órbita terrestre atravessa anualmente nuvens de detritos de cometas que causam as chuvas de meteoros.
O ano galáctico, período em que o Sol percorre uma órbita completa em torno do centro da Via Láctea, é estimado entre 230 e 250 milhões de anos.
Desde o nascimento do Sol já se passaram 20,44 anos galácticos, tempo suficiente para explicar o bombardeio acumulado nas regiões polares da Lua.
Entretanto, o que poderia causar essa direção preferencial do bombardeio?
Os dois únicos objetos interestelares observados até agora teriam capacidade de atingir as proximidades do polo norte terrestre durante a trajetória de entrada no sistema, ou o polo sul durante a trajetória de saída.
Veja o diagrama da trajetória do objeto interestelar 1I/‘Oumuamua:
Imagem: Oumuamua orbit at perihelion.png; nagualdesign; Tomruen; 1I/‘OUMUAMUA in Wikipedia, de JPL Horizons, redesenhado por nagualdesign e licenciado sob Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0 International license.
Tal trajetória poderia atingir nosso planeta na região polar sul durante a trajetória de saída, ou a região polar norte se a entrada tivesse ocorrido mais próxima à órbita terrestre.
Mas o que poderia causar esse fluxo de objetos?
Existe uma possibilidade descoberta recentemente:
O buraco negro central de nossa galáxia, Sagitarius-A, é mais ativo do que imaginávamos — uma forte explosão foi registrada e datada como ocorrida há 3,5 milhões de anos, e não há motivo para pensar que foi a primeira ou a última.[6]
Tais erupções gigantescas em seu eixo polar, que também é o eixo de nossa galáxia, poderiam lançar fragmentos de objetos desintegrados em suas proximidades ao longo desse eixo.
Esses fragmentos percorreriam uma trajetória sob a ação da gravidade de toda a galáxia, retornando em um plano perpendicular ao galáctico na região dos braços periféricos, e permaneceriam nessa órbita galáctica cortante em relação ao plano do Equador Galáctico.
Nosso sistema solar se localiza em um desses braços periféricos e interceptaria a trajetória desses fragmentos em diversas ocasiões ao longo de cada ano galáctico.
Se a hipótese estiver correta, nossa Terra se encontra não somente na galeria de tiro dos cometas e asteroides de nosso próprio sistema, mas também na galeria de tiro de nossa galáxia.
Esse bombardeio galáctico não se enquadra na hipótese do Intenso Bombardeio Tardio, atribuído a impactos dos blocos remanescentes da formação de nosso sistema solar.
Pelo contrário, esse bombardeio não está preso a uma limitação de data porque não está atrelado ao processo de formação de nosso sistema solar — e nem ao menos ao de nossos vizinhos estelares.
Esses objetos vêm de muito mais longe e a velocidades muito maiores — maior energia cinética permite que objetos menores, na casa de dezenas de quilômetros, causem impactos tão intensos quanto objetos de tamanho muito maior, o que poderia se aplicar ao impactador de nosso estudo.
Podemos ser surpreendidos a qualquer momento pela chegada de grandes objetos interestelares, sem tempo para uma reação defensiva, assim como fomos surpreendidos pela chegada de 1I/‘Oumuamua e 2I/Borisov.
Objetos muito maiores e velozes podem estar a caminho, e se ainda não temos recursos para defletir cometas e asteroides de poucos quilômetros, não haverá meios de defletir objetos de dezenas ou centenas de quilômetros, como foram os impactadores de Chicxulub e o deste estudo.
[1] Em escala planetária, impactos ainda maiores que "em escala de bacia", eventos > 1000 km podem ser necessários para causar crateras antipodais e remoção parcial da crosta (Marinova et al., 2011); Antipodal focusing of seismic waves due to large meteorite impacts on Earth, Geophysical Journal International 187(1):529-537 · Outubro de 2011
[2] A Bacia Borealis localizada em Marte atualmente não é reconhecida como uma cratera de impacto pela IAU.
[3] Entre 4,1 e 3,8 bilhões de anos atrás.
[4] A ferramenta Earth Impact Effects Program sugere uma densidade de 1.000 kg/m3 para cometas, apesar de os cometas observados até agora apresentarem uma densidade média em torno de 600 kg/m3.
[5] A ferramenta Earth Impact Effects Program sugere uma velocidade de 17 km/s para asteroides. O valor de 25 km/s foi usado por ter sido medido para o asteroide NEO 2019 OK, que passou a cerca de 100.000 km da Terra em 25 de julho de 2019.
[6] Astronomy.com, The Milky Way's supermassive black hole erupted with a violent flare just a few million years ago, por Erika K. Carlson, 10 de Outubro de 2019
1.3 Fenômenos geológicos associados a eventos de impacto
1.3.1 Fenômenos causados diretamente pelo impacto
Um arco vulcânico se forma na região da borda de grandes crateras.
Se não houvesse tectonismo, as crateras e seus arcos permaneceriam com a forma circular original pela eternidade, como evidenciado na Lua, Mercúrio e Marte; no entanto, a Terra apresenta movimentos tectônicos que deformam esses arcos e bordas.
Um impacto de intensidade suficiente para causar derrames vulcânicos (diâmetro da cratera superior a 250 km)[1] se caracteriza por alguns fatores:
1) Criação de um hotspot geológico, exceto onde a crosta terrestre é suficientemente espessa e rígida (Cratera Tarim).[2]
O hotspot pode conter um único duto vulcânico em seu interior (caso da Cratera Shiva[3]), ou vários dutos vulcânicos em função do tamanho da cratera, como no caso de Wegener — os grandes impactos podem somar vários dutos secundários na borda da cratera.
No entanto, a camada mais superficial que contém a borda da cratera pode se destacar e afastar-se do local do impacto na placa, enquanto o hotspot (se existente) permanece fixo no local do impacto.
2) Formação da cratera em si com borda circular; o terreno nessa borda é friável, facilitando a passagem de magma e permitindo a criação de vários dutos que formam o arco vulcânico circular.
A cratera é um fenômeno superficial que é transportado pela placa tectônica onde foi formada, como evidenciado pela Cratera Shiva no Oceano Índico, Cratera Wegener no Oceano Pacífico e outras que serão abordadas no estudo da extinção cretácea pelo autor.
3) Se a crosta for suficientemente espessa para não gerar um arco vulcânico, surgirão lagos e poços cársticos criados pelo lençol freático, como os:
· Cenotes associados à Cratera Chicxulub,
· Lagos cársticos do Planalto Tibetano associados à Cratera Tarim,
· Lagos cársticos do sul da Austrália associados à Cratera de Wilkes Land na Antártida, impacto ocorrido quando os dois continentes ainda estavam unidos, tema de outro estudo.
4) Eventos de impacto de grande magnitude capazes de gerar crateras maiores que 250 km fazem com que os derramamentos de lava fluam diretamente da cratera. Somente o grande e excepcional evento de impacto de Wegener foi capaz de causar também um derrame antipodal de magma.
5) Criação de uma cadeia vulcânica devido ao deslocamento da placa tectônica sobre o hotspot de impacto; em geral, em eventos de impacto, encontramos um hotspot em uma extremidade da cadeia vulcânica e uma cratera de impacto na extremidade oposta.
O hotspot pode permanecer ativo por milhões de anos, sinalizando sua presença por meio de correntes vulcânicas nas placas que cruzam sobre ele.
Exemplos:
· Hotspot da ilha Reunião— Cadeia vulcânica submarina Chagos-Laccadiva — Cratera Shiva na Placa Indiana
· Hotspot do Havaí— Cadeia vulcânica submarina Havaí-Imperador — Cratera Rohe[4]
· Hotspot das ilhas Kerguelen — Meseta submarina de Kerguelen — Cratera de Wilkes Land na Antártida
6) Dois eventos de impacto conhecidos geraram anomalias em grandes profundidades (250 km), como microplacas tectônicas subterrâneas.
Os exemplos das microplacas tectônicas subterrâneas da Grande Adria e Tarim serão comentados em outro segmento.
Mas precisamos enfatizar que outras microplacas tectônicas subterrâneas associadas a crateras de impacto podem existir, mas ainda não foram descobertas.
Todos os casos acima são tratados em detalhes em outros estudos deste autor.
[1] Conforme outros estudos pelo autor.
[2] A Cratera Tarim será apresentada posteriormente neste estudo e será discutida em detalhes em um estudo específico pelo autor.
[3] A Cratera Shiva é uma estrutura geológica na costa da Índia proposta pelo geólogo Sankar Chatterjee e colegas da Universidade do Texas como resultado de uma cratera de impacto durante a Extinção Cretácea. É apresentada em mais detalhes em outro estudo do autor.
[4] A Cratera Rohe é uma cratera proposta associada a essa cadeia de montanhas submarinas; esse assunto é detalhado em outro estudo do autor.
ATENÇÃO: Blog em ordem inversa. Para continuar a leitura, leia a postagem abaixo ("mais antiga").
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Muitíssimo interessante!
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