segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Evidências da Nova Zelândia

2.3 Evidências da Nova Zelândia para a Cratera Wegener
1) A fauna exótica da Nova Zelândia
Um dos mistérios que sempre intrigaram os cientistas é a especificidade da fauna e flora que integram o arquipélago neozelandês.
Antes da chegada dos primeiros habitantes humanos, não havia nenhum tetrápode[1] em seu território — apenas aves, boa parte delas não voadoras.
As moas, parentes dos avestruzes africanos, viveram até pouco tempo e chegavam a alcançar 3,5 metros de altura.
Essas aves chegaram à ilha voando, ainda pequenas, e encontraram um meio ambiente virgem de predadores naturais.
Por não precisarem fugir de predadores — nem mesmo ratos destruidores de ovos — e com alimentação vegetal farta sem concorrentes para disputá-la, perderam a capacidade de voar e algumas espécies desenvolveram o chamado gigantismo endêmico.
Moas foram extintos há cerca de 500 anos pela caça promovida pelos primeiros habitantes humanos e pelos mamíferos trazidos com eles, os maoris polinésios chegaram há cerca de 700 anos, e 200 anos depois não havia mais um único moa perambulando pelas ilhas.
E este é o grande enigma:
Se a Nova Zelândia se separou de Gondwana e do bloco continental australiano relativamente há pouco tempo geológico — por que nenhum réptil, anfíbio, crocodiliano, antepassado dos mamíferos, ou qualquer mamífero primitivo que já habitavam a Austrália veio a habitar as ilhas?
Por que nenhum desses animais veio junto com as ilhas com plenas condições de sustentabilidade?
Essa ausência de competição com as aves remonta à gênese da ilha.
Não há registros fósseis de qualquer classe de animais tetrápodes, seja réptil, mamífero ou anfíbio.
As raras exceções não são significativas:
·  A tuatara é um réptil que vive somente em pequenas ilhas nos litoral norte das duas ilhas. Nenhuma presença em terra firme — ela descende de animais extremamente primitivos e dele nenhum parente próximo é encontrado em todo o mundo.
Imagem: TUATARA, em Wikipedia. Parece um lagarto, mas é ainda mais primitivo, anterior aos dinossauros.
· Morcegos frutívoros também chegaram voando. Colonizaram o interior das ilhas com sucesso porque encontraram um nicho ecológico não disputado pelas concorrentes emplumadas — e acabaram perdendo a capacidade de voar pelos mesmos motivos que as aves.
· Leões marinhos se limitam a ocupar as praias oceânicas — vieram em tempos recentes à caça dos pinguins que migraram da Antártica.
· Existe um único registro fóssil de um mamífero muito pequeno, conhecido pelo nome provisório de “mamífero de Saint Bathans” que habitou a Nova Zelândia entre 19 e 16 milhões de anos atrás.[2]
Ele provavelmente chegou às ilhas vagando em emaranhados de vegetação flutuante desenraizados por enchentes, e desenvolveu uma pequena população local — mas não conseguiu disputar espaço com as aves plenamente adaptadas ao habitat e se extinguiu naturalmente.

2) Samambaias e tuataras da Nova Zelândia
Algo paradoxal na flora da Nova Zelândia é o número incomumente elevado de espécies de samambaias.
Em todo o mundo, as samambaias são principalmente plantas tropicais — mas a Nova Zelândia é um país temperado e há quase 200 espécies de samambaias vivendo lá.
Surpreendentemente, cerca de 40% das espécies de samambaias neozelandesas são encontradas exclusivamente nessas ilhas.[4]
De fato, o país está localizado em uma latitude comparável ao sul da Argentina e Chile, onde o clima é bastante frio pelo menos por metade do ano.
Imagem: Nature's Pic Images, Rob Suisted, https://www.naturespic.com/newzealand/image.asp?id=4504, Samambaias da Ilha Stewart, terceira maior ilha da Nova Zelândia
As samambaias da Nova Zelândia são adaptadas a baixas temperaturas, enquanto não há samambaias adaptadas a baixas temperaturas na Austrália... elas desenvolveram essa adaptação somente nas ilhas, ou a herdaram de tempos remotos?
Talvez a resposta para essa pergunta e a melhor prova desta hipótese sejam fornecidas pelo único tetrápode nativo da ilha, o tuatara.
Este animal é o último sobrevivente de uma ordem de animais que surgiu logo após a Extinção Permiana — entre 247,2 e 237 milhões de anos atrás, e se tornou muito comum entre 200 e 220 milhões de anos atrás — os rincocéfalos, também conhecidos como esfenodontes.
Todos os representantes dessa ordem se extinguiram entre 60 e 100 milhões de anos atrás, exceto a tuatara.
E a suposta data da separação da Nova Zelândia do continente australiano seria de 100 milhões de anos no passado — é pouco crível que os últimos esfenodontes que ainda sobreviviam estivessem justamente na hora certa no momento certo para migrarem junto com as ilhas.
É muito mais coerente pensar que esses animais foram os primeiros vertebrados sobreviventes do cataclismo a colonizar as Ilhas Norte e Sul, enquanto ainda unidas à Antártida Ocidental.
Tuataras vivem em tocas, e essa é uma característica comum à maioria dos sobreviventes de grandes extinções.
Esses répteis são animais ambientados a condições rústicas e, na falta de besouros, praticam o canibalismo — características que permitem sua sobrevivência em ambientes extremamente inóspitos.
Mas a principal particularidade que evidencia a origem antártica da tuatara é sua adaptação a climas frios.
Sua hemoglobina, única no mundo, permite que sejam ativas à noite com um mínimo de luminosidade, e a temperaturas até 5 graus acima do ponto de congelamento, em condições que seriam fatais para a maioria dos outros répteis.[5]
E fundamentalmente, tuataras são animais que morrem em temperaturas superiores a 28°C.[6]
Se vivessem na Austrália antes de migrar para a Nova Zelândia, esses répteis dificilmente teriam condições de desenvolver adaptações como essas.
Nem desenvolveriam parasitas igualmente adaptados ao frio, como o carrapato-da-tuatara, Amblyomma sphenodonti — esses insetos hematófagos, tão primitivos quanto as tuataras, não possuem parentesco próximo com nenhuma outra espécie de carrapato, inclusive os que vivem na Austrália.[7]
Esses carrapatos não se desenvolveram naquele continente, pois caso contrário seus descendentes aparentados hoje estariam parasitando lagartos-de-gola[8] — os parasitas das tuataras vieram de um tempo anterior à evolução dos lagartos.

3) A resposta para o enigma da fauna exótica
Bem, a resposta para o enigma mencionado no bloco anterior é simples:
A Nova Zelândia não se separou da Austrália.
Ela se separou de um local muito mais distante em Gondwana: a Antártida.
Breve histórico:
As ilhas se formaram como resultado do impacto que pôs fim ao Permiano — afloraram à superfície como magma lançado das profundezas no anel secundário mais externo da Cratera Wegener.
O processo de fratura da Cratera Wegener aponta para uma separação inicial da fração da Placa das Filipinas/Placa das Marianas rumo ao norte e a permanência da Placa da Zelândia unida à Antartida Ocidental pelo mínimo de algumas dezenas de milhões de anos.
Com a fração da Placa das Filipinas/Placa das Marianas cada vez mais distante, os ventos levaram os esporos arrastados pelos ventos do relativamente frio continente vizinho para a península formada pela fração da Zelândia unida à fração da Antártida.
Esse é o motivo de a flora das Ilhas se caracterizar pela presença de samambaias e gimnospermas adaptadas a climas temperados — são vegetais primitivos que dominavam o Triássico. Naquela época a Antártida não se localizava tão ao sul e seu clima era muito mais ameno do que hoje.
Assim que o processo de intemperismo desagregou as rochas recém-formadas e deu condições para os primeiros vegetais pioneiros se estabelecerem, chegaram os insetos, voando ou arrastados pelo vento.
Formigas e baratas, insetos resilientes com maior chance de sobreviver a eventos de extinção por habitarem tocas e gretas, provavelmente foram os primeiros animais a colonizarem as ilhas.
Apenas 11 espécies nativas de formigas vivem na Nova Zelândia, enquanto na Austrália existem mais de 1.200 espécies de formigas, talvez o dobro desse número — paradoxalmente, nenhuma delas chegou às ilhas.
Há pelo menos 4 espécies nativas da Nova Zelândia, adaptadas a climas frios: a Celatoblatta quinquemaculata habita regiões alpinas das ilhas, a cor negra da Maoriblatta novaeseelandiae é uma adaptação para a absorção de calor, a Parellipsidion latipenne possui asas, mas raramente voa, e finalmente a Parellipsidion conjunctum, bastante diferenciada de outras baratas à volta do planeta.[3]
Imagem: Insetos nativos Maoriblatta novaeseelandiae Parellipsidion conjunctum adaptados ao clima frio  https://inaturalist.nz/taxa/392119-Maoriblatta-novaeseelandiae Taranaki Educational Resource: Research, Analysis and Information Network
Não houve tempo para que essa aclimatação extrema fosse desenvolvida somente após o suposto rompimento a partir da Austrália; ainda mais, é impossível que sua linhagem tenha desaparecido completamente do continente.
Vale ressaltar que nenhum desses insetos com capacidade de voar — formigas e baratas — chegou às ilhas da Nova Zelândia a partir da Austrália, mesmo com a ajuda das correntes de vento predominantes.
Wētās provavelmente vieram nessa primeira leva colonizadora — era um animal comum em Gondwana.

Apesar de haver fósseis de animais aparentados na Austrália, nenhum  wētā australiano sobreviveu no continente, outro enigma da fauna da Nova Zelândia.
Antes de a fração neozelandesa se separar da Antártida Ocidental, teria havido tempo para representantes primitivos da vida vegetal e animal — pteridófitas e gimnospermas, insetos e tuataras do período Triássico — colonizarem as ilhas recém-formadas da Nova Zelândia no anel secundário.
Mas se isso está correto, então por que não temos tuataras nas Filipinas, Taiwan ou Japão?
Além do fato de que não sobreviveriam à passagem pelo calor dos trópicos, a fração da Placa das Filipinas/Placa das Marianas se separou da fração Zelandesa e da fração Antártica logo após o impacto.
Mas o principal motivo é que as ilhas da fração da Placa das Filipinas/Placa das Marianas somente desenvolveram terrenos férteis e criaram condições para a colonização quando já estavam muito longe para serem alcançadas por plantas e animais.
Os arquipélagos e ilhas chegaram totalmente virgens à Ásia, e seus habitats foram colonizados pelos representantes mais modernos da flora e fauna locais.
Mas voltando à fração da Zelândia:
Dezenas de milhões de anos após o impacto, houve a separação definitiva e a deriva em direção ao continente australiano.
Durante o longo percurso, novos terrenos sedimentares continuaram a se desenvolver pelos processos naturais de transformação de rochas magmáticas por intemperismo.
Os habitats da Nova Zelândia prosperaram e, quando as ilhas se aproximaram da Austrália e Indonésia, os habitats estavam prontos para receber a adição de novos habitantes mais modernos (angiospermas, novos insetos, aves, morcegos e leões marinhos).
Qual a explicação para o desenvolvimento de vegetais e animais exóticos adaptados a climas frios e temperados exclusivamente nas ilhas neozelandesas, e não nas demais ilhas do anel secundário?
A resposta é:
Porque eles se desenvolveram em um continente frio e temperado, coisa que a Austrália não era.
O fato é que a flora e a fauna exóticas e exclusivas das Ilhas prosperaram, e o resto é História — e este é o fim do enigma que intriga cientistas há pelo menos 200 anos.

4) A teoria atual sobre a separação da Nova Zelândia da Austrália
Sobre a teoria admitida hoje de que a Nova Zelândia se separou de seu vizinho continental, a conclusão é óbvia:
A separação do bloco subcontinental da Zelândia a partir de Gondwana, especificamente da Austrália, não é uma conclusão embasada em fatos concretos, observáveis e comprováveis...
Essa hipótese representa somente um raciocínio lógico gestado para corresponder à explicação lógica esperada, forçada a se encaixar na escola consagrada do pensamento científico do passado, por falta de uma alternativa aceitável.

É uma explicação que os cientistas consideraram razoável com base nos fudamentos científicos solidamente estabelecidos no final do século 19 e meados do século 20, como plumas do manto aleatórias e a então revolucionária teoria da deriva continental.
Afinal, naquela época impactos de asteroides eram uma fantasia de catastrofistas delirantes, muitos deles forçando os limites da Ciência para atestar ideias religiosas velhas de milênios opostas ao conhecimento científico... era o modo de vida de então.
Mas ressalte-se:
A maioria dos geólogos trabalhou com as melhores informações disponíveis na época — e se não fosse pelo trabalho árduo de tantos cientistas que esmiuçaram a Natureza, muitas vezes sem o apoio de ninguém para publicar suas descobertas, não chegaríamos tão longe — as ferramentas que permitiram este estudo e descoberta não estavam disponíveis até o início deste século.



[1] Mamíferos, répteis e anfíbios
[2] Fossil discovery turns scientific theory on its head, Trevor Worthy, School of Earth & Environmental Sciences, University of Adelaide
[3] T.E.R:R.A.I.N - Taranaki Educational Resource: Research, Analysis and Information Network, http://www.terrain.net.nz/friends-of-te-henui-group/local-insects/
[4] Department of Conservation, Te Papa Atawhai, Government of New Zealand, https://www.doc.govt.nz/nature/native-plants/ferns/
[5] Charles Daugherty, Allan Wilson Center for Molecular Ecology and Evolution, Victoria University of Wellington in New Zealand; Reptile’s Pet-Store Looks Belie Its Triassic Appeal Basics, por Natalie Angier, 22 de novembro de 2010
[6] Musico, Bruce (1999). "Sphenodon punctatus". Animal Diversity Web. University of Michigan, Museum of Zoology. 22 April 2006.
[7] Miller, Hilary C.; Conrad, Ailis M.; Barker, Stephen C.; Daugherty, Charles H. (January 2007). "Distribution and phylogenetic analyses of an endangered tick, Amblyomma sphenodonti". New Zealand Journal of Zoology. 34 (2): 97–105.
[8] Lagarto-de-gola, Chlamydosaurus kingii. Réptil australiano de porte similar ao tuatara, mas da ordem Squamata, mais moderna que a Sphenodontia.


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